1 de abril de 2010

Barreira

Fui acobertando o silêncio, e acumulando lacunas, para não deixar um barulho qualquer entrar.
Barulho que por menor que fosse, pudesse quebrar o vidro, quebrar minha redoma e espalhar mil estilhaços pelo chão.
Nunca me permiti andar descalça, correr o risco de passo a passo pisar nos cacos, nos meus próprios pedaços me ferir.
Quando é na gente, e não no outro, o corte parece mais profundo.
De longe sangue parece tinta, quando se fura o dedo dói mais quando o caco de vidro entra e o sangue não sai.
A dor vai acumulando, o sofrimento sendo acobertado.
Na pele marcas contam histórias que contam melhor a alma, arranhão é risco corrido, hematoma é o que menos fica da queda, sentir câimbras é sinal de que ainda se tem pernas mesmo estando parado.
O dedo continua latejando enquanto o vidro não for retirado.
Com o tempo nos apropriamos da dor, começamos a gostar da pulsação, pensar que ela faz parte da gente.
Mas o corpo reage, e mais cedo ou mais tarde trata de expelir o vidro e mandar a dor embora.

4 comentários:

Priscila Rôde disse...

Esperar é o verdadeiro desafio!
Dói mas, passa!

Aline Dias disse...

tempo é rei!

Dieymes disse...

Que não te falte inspiração nem papel!
Adorei cada virgula degustada!
Obrigado!

Priscila Milanez disse...

covardes são deprimentes!!!!