9 de março de 2012

Seiva

jogar sal na ferida.
vinagre no corte.
se sentir em carne viva.
para depois se sentir vivo.


17 de fevereiro de 2012

Palavras viciadas

Falta eu sinto
De quando peso era palavra
Que me deixava leve quando colocada no papel.
Falta eu sinto, pior é não sentir.

24 de novembro de 2011

Freely


Mais lounge
menos longe
transmito liberdade
e  o sentimento
se expande.

26 de outubro de 2011

O que sobra

Vazio camuflado pesa
a gente guarda tudo
acumula até a borda
ocupa vazios com entulho
forma uma espécie de escudo
armadura interna
mas chega uma hora
que é necessário colocar tudo pra fora
pra ver como a gente de fato está por dentro

21 de setembro de 2011

Sintonia

É que hoje eu não fui bossa quando você foi violão.
Eu era blues.
E seus acordes não acompanhavam minha gaita.
Eu estava tentando encaixar uma pessoa poema.
No lugar de uma pessoa prosa.
Acontece que eu sou livre.
E não quero contar as sílabas da sua métrica.
Nem passar o meu tempo contanto os compassos.
Pra fazer os meus passos de tango
Encaixarem nos seus passos de valsa.
Meus pés ainda carregam o peso da minha última dança.
Por isso não adianta mudar o ritmo.
A música aqui dentro continua a mesma.

31 de julho de 2011

Flash

Você só não pode deixar virar fotografia.
Lá os sorrisos desbotam.
E com o tempo viram folha em branco.
Emoldurada pela nostalgia.

5 de julho de 2011

Resquícios.

Vivia se queixando das marcas que eu deixava.
Queimaduras de cigarros nos tapetes.
Cheiro de fumaça nas cortinas.
Manchas de vinho no sofá.
Enquanto as marcas mais importantes.
Aquelas retinas não conseguiam enxergar.

1 de março de 2011

Papel.

Poesia escrita em papel toalha
enxuga a dor
que escorre da caneta do poeta.

12 de janeiro de 2011

A gota d'água

Transbordava, mas não era rasa.
Era  cogulo em demasia.
Era tanto que excedia.
Saia pelas  bordas, derramava.
Era profunda.
Mas não cabia mais em sí.
De tanto chorar pra dentro
a menina virou lágrima.

4 de janeiro de 2011

Húbris.

Para alcançar voo é preciso ser leve.
aceitar o céu.
assumir que precisa do vento.
sem pesar.
sem orgulho.
esse entulho que pesa no peito.

9 de dezembro de 2010

Crème brûlée

Essa dureza toda é carapaça.
Casca, casulo, disfarce.
No fundo é crème brûlée.
Depois da camada cascuda.
É doce, doce...

16 de novembro de 2010

Ascendente

Ele tinha a Lua em peixes.
Marte em escorpião.
Elemento fogo.
Ela tinha a cabeça na Lua.
O coração em Marte.
Não acreditava em zodíaco.
Preferia seguir os rastros.
E deixar os astros de lado.

31 de outubro de 2010

Atrás da porta

Como uma criança assustada em busca de abrigo.
Corre para qualquer lugar seguro.
Busca de olhos fechados, no escuro.
Um pouco de clareza

2 de outubro de 2010

Alice III

Alice conhecia muitas pessoas poesia, conseguia ler cada uma delas.
Mas pessoa música nunca tinha visto.
Sentiu o estranhamento do primeiro contato.
Depois fechou os olhos para ouvir.
E descobriu que pessoas música ganham ritmo nos lábios.

28 de agosto de 2010

Covardia.

Nó na garganta, choro engasgado, palavras presas, e soluços abafados pela angústia.
Não tinha mais dúvidas, era um grande covarde, desses de causar inveja em todos os outros covardes.
No início como todo covarde crônico ele chamava suas pequenas covardias de mecanismos de defesa.
Quando se auto sabotava tratava logo de colocar a culpa no altergo, como o irmão mais velho que aponta o dedo pro caçula ao fazer algo de errado.
Todo bom covarde que se preze gosta de colecionar angústias, angústias de todos os tipos, todos os tamanhos .
Guardam todas elas no peito, quando o peito explode, angústia vira lágrima, lágrima é dor que lastra pelo corpo.
Dor pesa, mas isso não é problema pro covarde, ele consegue suportar e carregar uma grande e pesada dor como ninguém, sem lastimar.
O covarde se cala, se anula, desiste de sí mesmo, faz sempre o oposto daquilo que gostaria de fazer.
Fala muito, mas é como se estivesse sempre calado, não diz uma palavra sequer da coleção de coisas que sempre quer dizer, mas nunca diz.
Encontrar um covarde é mais fácil do que você imagina, um covarde sempre reconhece outro covarde.

5 de abril de 2010

Não sinto muito

Coisas que eu não sinto.
São registros.
Preciso registrá-las a todo instante.
Para um dia saber o que elas significam.
Caso eu nunca venha a sentir.

1 de abril de 2010

Barreira

Fui acobertando o silêncio, e acumulando lacunas, para não deixar um barulho qualquer entrar.
Barulho que por menor que fosse, pudesse quebrar o vidro, quebrar minha redoma e espalhar mil estilhaços pelo chão.
Nunca me permiti andar descalça, correr o risco de passo a passo pisar nos cacos, nos meus próprios pedaços me ferir.
Quando é na gente, e não no outro, o corte parece mais profundo.
De longe sangue parece tinta, quando se fura o dedo dói mais quando o caco de vidro entra e o sangue não sai.
A dor vai acumulando, o sofrimento sendo acobertado.
Na pele marcas contam histórias que contam melhor a alma, arranhão é risco corrido, hematoma é o que menos fica da queda, sentir câimbras é sinal de que ainda se tem pernas mesmo estando parado.
O dedo continua latejando enquanto o vidro não for retirado.
Com o tempo nos apropriamos da dor, começamos a gostar da pulsação, pensar que ela faz parte da gente.
Mas o corpo reage, e mais cedo ou mais tarde trata de expelir o vidro e mandar a dor embora.

5 de fevereiro de 2010

Aspiral

No parapeito
de peito aberto.
está o Pierrot .
pela Colombina chorando confete.
fazendo da tristeza.
um colorido aspiral.
para virar serpentina.
e fazer festa pra Colombina.
durante todo carnaval.

13 de janeiro de 2010

Simples

Quando eu escrever um verso puro.
verso sem quimeras.
todas as inúteis esperas.
na ponta de uma caneta vão cessar.

Quando eu escrever um verso por inteiro.
verso simples e sem devaneio.
mapas, placas, relógios.
Não irão mais me aprisionar.

Quando eu encontrar o verso diferente.
verso que transcende.
corpo, alma e mente.
estarão livres pra voar.

26 de dezembro de 2009

Meio

Meio incoerente.
Meio perdido.
Meio lunático.
Meio sem sentido.
Meio a meio.
Me torno inteiro.
Inteiramente incompreendido.

25 de dezembro de 2009

Pausa

Preciso que você mantenha os olhos abertos, olhando para frente e não para baixo.
Farei perguntas tolas, para que não existam pausas.
E quando houver silêncio, repitirei as perguntas, falarei do tempo se for preciso.
Contanto que você continue falando, mesmo que coisas sem sentido, palavras sem nexo.
Preciso ouvir sua voz pra saber que as coisas estão bem, me sentir segura.
Se não tiver o que dizer, cante, e se faltar ritmo simplesmente declame.

15 de dezembro de 2009

Não passa com tapa nas costas

Esperei muito tempo para dizer que secou faz tempo.
Não tive como dizer antes, as palavras também tinham secado, se tornado pó na minha garganta. Incomodou muito e ainda incomoda.
Eu não conseguia colocar para fora, estava seca, mas não estava vazia, tentei colocar o dedo na garganta, mas nada saia.
Engoli muitos sapos, para ver se descia o que estava entalado.
Engasguei e tive um mundo atravessado na minha traquéia, não teve tapa nas costas, nem manobra de heimlich que desse jeito.
Mas a angústia fez tudo transbordar, agora eu só quero respirar um pouco, entende?

8 de novembro de 2009

Ser

Sentido
sem ti
sendo
assim sem sentido
sem tino
assim sentido
sentindo
indo sem ti
ainda sentir.

2 de novembro de 2009

Sequência

Fade in

Plongée seguido de plano detalhe
troca o plano
a perspectiva é outra
traveling
close
o olhar não cabe na tela
a lente não consegue captar a luz

Elipse
Dolly back
Fade out

7 de outubro de 2009

Insônia

No escuro das noites em claro, tenho a sensação de ser uma janela dentro de outras janelas, sempre abertas, com vista para lugares diferentes.
Quero que todas as manhãs sejam alaranjadas, com finais de tarde rosa e noites de um tom qualquer que me permita ver estrelas.
Atrás da noite, meus medos e euforias se escondem, eu piso na grama com menos cautela e atravesso correndo.
Antes que amanheça e o sol possa me cegar.

27 de setembro de 2009

Engarrafada

Uma dose, depois outra.
Viro o copo num único gole.
Para a dor descer pela garganta,
antes que possa me engolir.
Coloco bastante gelo.
E quando ela estiver embriagada,
tranco na garrafa vazia em cima da mesa.

Dor

Avassalador.
Animador.
Abrasador.
Arrebatador.
Curador.
libertador.
Encantador.
Estimulador.
Tranformador.
Conhecedor.
Vencedor.

Ela sempre estará lá.
Não importa o quanto uma coisa seja boa.

4 de setembro de 2009

Nenúfar

Uma típica manhã de Monet ainda fresca.
Cores cruas, sem misturas.
Traços sutis.
Sol que transborda no céu.
Passarada que entoa um canto leve,
Vooam sem borrar os esquissos de nuvens.
Cheiro de nenúfares em águas pinceladas.
É de luz
o movimento das nenúfares que dançam no lago.
Trazendo harmonia a tela.

3 de agosto de 2009

Puxa uma cadeira

O cansaço chega sempre muito rápido, se acomoda facilmente em todos os cômodos.
Ele entra, puxa uma cadeira, e reclama da temperatura do café.
Anda pelo espaço com o sapato sujo, e enquanto você corre pra pegar um pano e limpar o chão, ele já está sentado com os pés em cima do sofá, encardindo com a sujeira de tudo que ele percorreu da porta pra fora, e agora trás pra dentro da sua casa, pra dentro de você.
Essa sujeira penetra sua pele, invade os seus poros.
Ele acende o cigarro, e a fumaça invade suas narinas, seus pulmões, afeta o seu sistema respiratório, cria um enfisema, em um curto tempo o cansaço se instala no seu quarto e se apropria da sua cama.
Seus lençóis já estão impregnados, você se sente molestada ao se cobrir na noite fria com a causa da sua doença.
E todas as manhãs você acorda com o rosto coberto com poeira, poeira da parede que você tenta quebrar diariamente para construir novas janelas, na esperança de abrir e pedir por socorro.
Percebe que é loucura, que o vento não balança a cortina, parece tinta por cima de concreto e gesso, e talvez seja.
Você percebe que a janela não passa de pintura, uma releitura das poucas lembranças que sobraram do que existe lá fora.
Então você caminha até o sofá, e toma uma xícara de café com o cansaço.

12 de julho de 2009

Inverno

Céu grís de junho anunciando o inverno.
Descobrir o lado bom do frio, que não aquece mais conforta.
Céu sem sol, sem azul, sem estrela nenhuma para observar, mas tão cheio de nuances, que dá para se perder tentando desvendar todos os tons de cinza que se escondem atrás de cada nuvem.
A chuva é boa, é chuva de verdade, não é como chuva de verão, que quando você abre a porta ela já foi embora deixando apenas o cheiro de terra molhada que dura pouco.
Você pode sentir cada gota caindo sobre a sua pele, sem precisar ser breve.
O mar também gosta do inverno, no verão as ondas ficam revoltas porque ele se sente contrariado.
Não é correto dizer que o mar é domado pelo vento em noites gélidas.
As ondas são orquestradas pelo vento.
Existe doação, amor genuíno, não doma nem é domado, o mar apenas se permite, levando e sendo levado.
Se quiser sentir, ver de perto, corre o risco de ficar com areia nos pés, mas pode ser a única lembrança que você guarde do dia em que pisou em um lugar seguro.
É preciso ter pulmões que sejam fortes o bastante para passar pelo inverno.
Quanto a mim? Eu não sei se tenho imunidade.